quarta-feira, 20 de julho de 2016

UM RELÓGIO MUITO LOUCO

Vamos levando a vida, vendo comportamentos mudando e atitudes surgindo, e aceitamos tudo sem uma interrogação. Por exemplo, por que o tempo parece estar passando mais rápido?
No livro Tempo e Narrativa, do filósofo Paul Ricoeur, li esta explicação (p. 367): “Quanto a marcha rumo ao progresso, já quase não acreditamos nela. A crença de que o tempo para dias melhores estava diminuindo – com os desastres recentes, desordens civis, novas doenças e corrupção crescente – caiu em descrença. Não vemos recuar para um futuro cada vez mais distante e incerto a realização de nosso sonho de uma humanidade reconciliada? A Época Moderna se caracteriza por um encolhimento do espaço de experiência, que faz com que o passado pareça-nos cada vez mais distante, mas também por um afastamento crescente do horizonte de expectativa. A esperança de nossos antecessores de que marchávamos para a realização da utopia (algo ainda sem um lugar) nós a perdemos. Resta-nos hoje a ucronia (algo sem tempo certo) já que o horizonte de expectativa recua mais rápido do que avançamos. Ora, quando a expectativa já não pode ser fixada num futuro determinado, balizado por etapas discerníveis, o próprio presente se vê dividido entre um passado superado e um futuro indiscernível. Isto tudo torna o presente cindido e o sentimos como em crise”.
Trocado em miúdos: o homem jovem tem pouca experiência porque não estudou bem o passado e ficou sem um futuro discernível; isto cria um relógio muito louco.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

ADIVINHA DE QUEM FALAVAM.

O livro Eu, Claudius o Imperador, de Robert Graves conta sobre uma profecia da sibila Trasyllas; é Calígula falando da avó Lívia, mulher de Augusto (p.272):
- “Metera-se-lhe no bestunto que um deus há mil anos referido em todas as profecias do Oriente, nasceria no tempo dela. Ele não nasceria em Roma, mas reinaria sobre nós. Deveria ser morto ainda jovem - após ter sido amado e odiado pelo seu povo - de morte miserável e abandonado por todos, mas causaria inumeráveis guerras entre as nações. Como toda profecia esta é cheia de presságios misteriosos. Diz que seus seguidores beberão seu sangue e depois de morto será maior que todos os deuses, mesmo em terras ainda desconhecidas para nós.
- E o senhor acredita nisso?
- Sim! Meus astrólogos dizem que muitos presságios vistos no Oriente dão conta de que esse homem já está vivo! Também tenho ouvido muito sobre isso de meus funcionários judeus. Creio em tudo isto e sei com certeza que se referem a mim”.
Calígula teve uma vida breve e governou boa parte do mundo por quatro anos. Nasceu em 12 d.C e morreu em 41 d.C. O jovem rei profetizado não foi ele, logicamente.