Quando me
debrucei sobre o desafio de procurar o Adão bíblico, deparei com o problema do afastamento
dele no tempo. Quanto mais no passado mais complicada é a recuperação dos
acontecimentos. Cerquei-me de livros de Arqueologia, estudos da Pré-História,
Filosofia e Teologia. Tudo o que lia juntava ao meu arquivo mental com dezenas
de anos de estudar e ensinar.
Leio agora
em Tempo e Narrativa, de Paul Ricoeur, a constatação (p. 317): “O imaginário
cresce à medida que a aproximação se torna maior”. Não é difícil pegar um livro
de Arqueologia e citar como era a religião no Norte do Iraque há 6 mil anos. Mas
se o escritor se aproxima mais da cena, vendo Adão bem de perto, por exemplo, seu despertar
numa madrugada com o céu carregado de estrelas, não há fontes científicas para
te ajudar, resta a imaginação. “Tomemos a tese mais realista sobre a descrição
do passado histórico: é preciso reinscrever o tempo da narrativa no tempo do
universo. A história contada precisa submeter-se a cronologia da história do
Sistema Solar e das galáxias e do ser humano”. E como se faz isso? “Não nos
esqueçamos de que o abismo entre tempo do mundo e tempo vivido na narrativa só
é atravessado graças à construção de alguns conectores. Um deles é inserir informações
sobre o movimento da sombra projetada pelo personagem o que define o momento do
dia e a estação do ano”.
Escrever um
romance e ainda por cima histórico não é tarefa fácil.


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