domingo, 2 de novembro de 2014

A causa de toda perturbação está em que ninguém se acusa a si mesmo.

Temos, agora, uma coisa muita agradável, eu e Lili. Ao invés de sentarmos para estudar juntos, estamos deitando para ler, com todo respeito. A pouco estávamos lendo uma exortação de um homem que viveu na terra de Gaza. 

Doroteu (505-565) tornou-se cristão, escolheu a vida de monge, fundou um monastério e escreveu Instruções para um Treinamento a Plena Vida Espiritual. Enquanto recebíamos massagem por todo corpo explicava a Lili que aquela época parecia-se muito com a nossa.
- Parecia-se a de hoje em que sentido, Zé?
Disse São Doroteu: “Somos negligentes e amantes da vida cômoda, acreditamos andar pelo caminho certo, apesar de sermos impacientíssimos em tudo. Assemelhamo-nos a um bonito pão que ao ser cortado mostra um miolo cheio de sujeira. Levamos a vida quietos e de modo pacífico, mas basta alguém lançar uma palavra desagradável e imediatamente jorra de dentro de nós acusações e imprecações, pus e sujeira oculta”.
Fiz para Lili um breve resumo do mundo em torno de Mediterrâneo àquela época. Por seiscentos anos os romanos se expandiram dominando e levando seu idioma, sua cultura, costumes e saberes por toda Europa e Oriente Médio. Mas ao final do século IV os guerreiros e os sábios romanos tornaram-se corruptos e amantes da vida fácil e licenciosa. Sempre houve malfeitores, mas então em cada família havia pessoas sem princípios e os familiares suportavam e até aceitavam aquilo.
- Os bons não eram mais a maioria, não é?
Pior, não havia mais um parâmetro para o que era ser um bom cidadão. Inverteram-se todos valores. Não parece com hoje em dia? Então, os povos bárbaros – com uma cultura selvagem, analfabetos, pobres, com uma religião que adorava a natureza, sujos e sem conhecimento de bons costumes – venceram os “bons romanos”, educados, religiosos e com alguma riqueza. O século V viu a civilização romana ser desmanchada: as estradas calçadas que ligavam Roma a povos em todas as direções foram abandonadas e se desmancharam, as torres de comunicação que de tantos em tantos quilômetros enviavam mensagens sejam por reflexos de espelho ou por movimento de bandeiras foram desativadas e as linhas de comércio foram cortadas. Cada guerreiro bárbaro mais terrível formou sem principado cuja única relação com os vizinhos era de guerra.
- A cultura latina acabou, Zé?  
Não, ela foi mantida acesa pela Igreja Católica.  (pintura feita por cristãos nas catacumbas, séc.III)

E não adianta “torcer o nariz”. Se não fosse o latim falado pelos padres nos mosteiros, a leitura regular dos livros e o trabalho de fazer cópias deles e o estudo continuado das ciências feitas nesses locais que os bárbaros não atacavam por superstição e medo, tudo teria desaparecido. São Doroteu de Gaza foi um desses homens incansáveis. Vivemos num tempo semelhante àquele. Vale que temos a “rodear-nos uma tão grande nuvem de testemunhas”, como esse homem. 
(pintura no teto da Igreja de Santa Pudenziana, final séc. IV)  


Ah, ia esquecendo o que ele nos mandou fazer numa época em que ser gay é respeitável, vender os princípios por um bom dinheiro é sinal de capacidade e achar o aborto, a pedofilia e a falta de cuidado com as crianças coisa de gente avançada: a causa de toda perturbação está em que ninguém se acusa a si mesmo.

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