Temos,
agora, uma coisa muita agradável, eu e Lili. Ao invés de sentarmos para estudar
juntos, estamos deitando para ler, com todo respeito. A pouco estávamos lendo uma
exortação de um homem que viveu na terra de Gaza.
Doroteu (505-565) tornou-se
cristão, escolheu a vida de monge, fundou um monastério e escreveu Instruções
para um Treinamento a Plena Vida Espiritual. Enquanto recebíamos massagem por todo
corpo explicava a Lili que aquela época parecia-se muito com a nossa.
- Parecia-se
a de hoje em que sentido, Zé?
Disse São Doroteu: “Somos
negligentes e amantes da vida cômoda, acreditamos andar pelo caminho certo,
apesar de sermos impacientíssimos em tudo. Assemelhamo-nos a um bonito pão que
ao ser cortado mostra um miolo cheio de sujeira. Levamos a vida quietos e de
modo pacífico, mas basta alguém lançar uma palavra desagradável e imediatamente
jorra de dentro de nós acusações e imprecações, pus e sujeira oculta”.
Fiz para Lili um breve
resumo do mundo em torno de Mediterrâneo àquela época. Por seiscentos anos os
romanos se expandiram dominando e levando seu idioma, sua cultura, costumes e
saberes por toda Europa e Oriente Médio. Mas ao final do século IV os guerreiros e
os sábios romanos tornaram-se corruptos e amantes da vida fácil e licenciosa.
Sempre houve malfeitores, mas então em cada família havia pessoas sem
princípios e os familiares suportavam e até aceitavam aquilo.
- Os bons
não eram mais a maioria, não é?
Pior, não havia
mais um parâmetro para o que era ser um bom cidadão. Inverteram-se todos valores.
Não parece com hoje em dia? Então, os povos bárbaros – com uma cultura selvagem,
analfabetos, pobres, com uma religião que adorava a natureza, sujos e sem
conhecimento de bons costumes – venceram os “bons romanos”, educados,
religiosos e com alguma riqueza. O século V viu a civilização romana ser
desmanchada: as estradas calçadas que ligavam Roma a povos em todas as
direções foram abandonadas e se desmancharam, as torres de comunicação que de
tantos em tantos quilômetros enviavam mensagens sejam por reflexos de espelho ou por movimento de bandeiras foram desativadas e as linhas de comércio foram
cortadas. Cada guerreiro bárbaro mais terrível formou sem principado cuja única
relação com os vizinhos era de guerra.
- A cultura
latina acabou, Zé?
Não, ela foi
mantida acesa pela Igreja Católica. (pintura feita por cristãos nas catacumbas, séc.III)
E não adianta “torcer o nariz”. Se não
fosse o latim falado pelos padres nos mosteiros, a leitura regular dos livros e
o trabalho de fazer cópias deles e o estudo continuado das ciências feitas
nesses locais que os bárbaros não atacavam por superstição e medo, tudo teria
desaparecido. São Doroteu de Gaza foi um desses homens incansáveis. Vivemos num
tempo semelhante àquele. Vale que temos a “rodear-nos uma tão grande nuvem
de testemunhas”, como esse homem.
(pintura no teto da Igreja de Santa Pudenziana, final séc. IV)
Ah, ia
esquecendo o que ele nos mandou fazer numa época em que ser gay é respeitável,
vender os princípios por um bom dinheiro é sinal de capacidade e achar o aborto, a pedofilia e a falta de cuidado com as crianças coisa de gente avançada: a causa de toda
perturbação está em que ninguém se acusa a si mesmo.




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