segunda-feira, 20 de abril de 2015

Vou com minha bike subir a serra da Piedade.

Ontem, pedalava e conversava com o amigo Luciano Moura, aficionado pela cultura medieval e mais precisamente por tudo que houve antes do Modernismo. 

Falávamos dos  dinamarqueses, os vikings e sua invasão da Grã-Bretanha. Então, ele disse inspiradamente: A Igreja Católica foi um grande freio para impedir que os homens voltassem aos seus mais baixos instintos. E, agora cedo, li sobre isto no livro A Serra e o Santuário, de J C V Tambasco.
Esta obra fala de Caeté, cidade alguns quilômetros depois de Belo Horizonte. Um pouco afastado do centro da cidade tem um monte onde o povo sobe para rezar numa pequena igreja que foi antes uma capela. Lá do alto o visual das terras de Minas é muito bonito. E já estou me aprontando para viajar de ônibus até lá perto, tirar minha bike do bagageiro e pedalar por aquele lugares afastados da correria da vida mundana.

Aí é que uma coisa se liga a outra. A capela foi erigida pelo português Antônio da Silva Bracarena. Ele veio para o Brasil e para Minas Gerais já no final da mineração do ouro e trabalhou na região de Ouro Preto. Era um mestre construtor de grandes obras: igrejas, prédios públicos e casas de gente rica. Ganhou um bom dinheiro, levava uma vida folgada. “Vida folgada” é uma expressão que engloba uma existência voltada para a satisfação pessoal e sem se preocupar muito em controlar hábitos e comportamento. Mas Bracarena deixou de ver graça nisso. Foi se tornando mais religioso e resolveu que precisava levar a sério o que Jesus mandou: Orai e vigiai. Decidiu se tornar um anacoreta.
- Dá pra explicar o que significa isso, Zé? Não estou nada afim de procurar no Google.
É um ermitão, um homem que se afasta da vida mundana e que fiscaliza com determinação todos os desejos de seu corpo. Ele imita o princípio da vida de Cristo que foi para o deserto e ficou lá 40 dias jejuando, orando e vigiando. Preparando-se como um guerreiro para enfrentar o Mal. O lema dum monástico foi expresso por Santo Antão que viveu no fim do terceiro século da Era Cristã: “Aquele que se permite tudo, chegará muito depressa a cometer tudo o que não é permitido”.
Bracarense usou o dinheiro que tinha para fazer a capela no alto do morro e estando na cidade o jovem Antônio Francisco Lisbôa – que anos depois, doente, passou a ser chamado de Aleijadinho – esculpindo as imagens da igreja matriz da cidade, encomendou-lhe a imagem de Nossa Senhora da Piedade. Um viajante europeu, Jean de Montlaur, visitando a pequena igreja no início do século XX, descreveu assim a imagem: “A virgem pálida segura entre seus braços o corpo divino do Seu filho coberto de chagas, pleno de realismo. Não é a Ele que ela olha, mas àqueles que os vêm visitar. Seus olhos falam de uma tristeza infinita”. E o frei Luís de Ravena, escrevendo a seus superiores, em 1861, disse: “Coisa mais notável! Aqueles que não vêm ao santuário por espírito de religião, senão por passeio, no silêncio desta solidão, longe do tumulto do século e sobretudo por estar diante desta imagem perfeitíssima, experimenta uma comoção insólita e pensa logo numa mudança de vida”.


Por isso, vou com minha bike subir a serra da Piedade.     

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Prenda-o e não lhe dê chance de aprender a ser do bem.

Povo fascinante os Vikings, os guerreiros dinamarqueses. Sobre eles estou lendo em O Último Reino, emprestado pelo amigo Luciano Moura. O personagem principal é um menino inglês capturado e criado por um chefe que veio das terras nórdicas. O que o menino pensa nos esclarece muito sobre a diminuição da idade para efeitos penais.
Um menino tem várias influências. Leia o que diz Uhtred (p. 79): “Observe a apenda, dissera meu pai, e eu estava aprendendo. O que mais pode fazer um garoto que ainda não mudou de voz? Só um em cada três homens é um valente e cuidado com os golpes baixos, a traição. Olhe e aprenda, dizia meu pai”. Mas o pai morreu e ele acabou nas mãos de um assassino, que também lhe ensinava. Afinal, o que mais pode fazer um rapaz senão aprender? (p. 70) “O que acontecerá com você será de sua própria responsabilidade. Você vai aprender a usar uma arma e a enfrentar os oponentes e depois usará o que aprender para tornar sua vida boa ou ruim”.

Assim acontece com quem não tem experiência de vida e teve um bom professor marginal e não teve um pai presente e preocupado. Então, o jovem pensa mais ou menos desse jeito (p. 113): “Comecei a pensar que não era bom ficar do lado do bem, porque ele estava perdendo. Por isso decidi ser assassino. Claro que estava confuso, mas não dava para ficar muito tempo pensando nisso. Em vez disso, à medida que me aproximava dos 12 anos, comecei minha luta de verdade. Era obrigado a ficar horas segurando uma arma pesada com as mãos estendidas para a frente do corpo até os braços doerem. Aprendi a atirar e fui treinado para matar. E ainda estou aprendendo a me proteger. Cresci, ganhei músculos e comecei a falar com voz de homem. Era do bem, mas parecia um matador”.
Não queira se defrontar com um menor dividido assim. Com um criminoso profissional talvez você tenha uma chance de ficar vivo, com o adolescente criminoso, jamais. (p.121) “Levamos o roubo para o carro e, naquela noite, enquanto bebia cerveja , pensei em mim como um guerreiro. Tive a infância perfeita, pelo menos na minha ideia de garoto. Vivia no meio de homens de verdade, era livre e vivia solto, não era restringido por nenhuma lei, não era incomodado por padres ou pastores, era encorajado à violência e raramente estava sozinho”.


Trancafie-o aí, neste momento confuso. Puna-o para toda vida e não lhe dê chance de aprender a ser do bem.    

domingo, 12 de abril de 2015

Tau - Os símbolos têm muita força.

O amigo Luciano Moura me emprestou um livro, O Último Reino, de Barnard Cornweel, sobre os Vikings. Na p 52 fala do martelo de Thor:
 “- Que negócio é este no seu pescoço?
Mostrei. Era um grosseiro martelo de ferro do tamanho do polegar de um homem.
- Ainda vamos transformar você num dinamarquês.
O martelo era o símbolo de Thor, filho de Odin. Falavam mais de Thor e me perguntava se o filho não seria mais importante que o pai. Mas ninguém parecia se importar muito com isso. Não havia sacerdotes entre os dinamarqueses, que não pareciam muito preocupados com seus deuses, embora quase todos usassem o emblema do martelo ao pescoço”.
Neste século XXI a maioria faz tatuagens, usam amuletos e a cruz sem se preocupar com adoração, “não parecem muito preocupados com seus deuses”. 

Mas os símbolos marcados em nosso corpo ou pendurados nele têm força. Estão ligados ao tempo em que os quase humanos ainda nem falavam.
A Wikipédia cita um Dicionário que diz: “A forma da cruz de duas vigas teve sua origem na antiga Caldeia e foi usada como símbolo do deus Tamuz (tendo a forma do Tau místico, a letra inicial de seu nome) naquele país e em terras adjacentes no Egito. Por volta dos meados do terceiro século d.C, a igreja havia arrematado certos símbolos e festas pagãs para a fé cristã”.
Alguns protestantes dizem que a Igreja Católica é Babilônia por usar costumes oriundos da caldeia. Mas o ser humano é milhares de anos mais antigo que os babilônios que também herdaram os símbolos e comemorações. Citando a Enciclopédia Britânica a Wikipédia, diz: “Encontraram-se diversos objetos, datando de longos períodos anteriores à Era Cristã, marcados com cruzes de feitios diferentes, datando desde a parte posterior da Idade da Pedra”. 

A Bíblia fala do Tau “última letra do alfabeto hebraico, e diz em Ezequiel 9, 1-7: “Passa pela cidade, por Jerusalém, e marca com um TAU a fronte dos homens que gemem e choram por todas as práticas abomináveis que se cometem” Um site franciscano, diz: “Horizontalidade e verticalidade. As duas linhas: Céu e Terra! Temos o símbolo do TAU riscado nas cavernas do humano primitivo. Nos objetos do Faraó Achenaton no antigo Egito e na arte da civilização Maia. 

Francisco de Assis o atualizou e imortalizou. Não criou o TAU, mas o herdou como um símbolo seu de busca do Divino e Salvação Universal”.


A viga horizontal é o homem em sua vida limitada, a estaca vertical é a alma (todo conjunto de informações de nossa vida guardados na memória de Deus) que ascende e busca o espiritual. Os símbolos têm muita força. 

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Vai ser preciso muitas “cotas” para resgatar tudo.

“Pureza de sangue”, já ouviu falar disso?
Quando da descoberta do Brasil havia em Portugal forte descriminação as pessoas que descendiam de árabes, de judeus ou de africanos. Este preconceito veio para a América. Quem não fosse um europeu puro, fosse descendente dos três grupos já mencionados e também de índios, não podia exercer um cargo público, nem participar da alta sociedade. Diz o trabalho do Dr. em História, Daniel Precioso, Pardos e Crioulos em Ordens Terceiras (p. 120): “A nota distintiva de “liberto” foi abolida no reino português pelo Alvará de 16 de janeiro de 1773, mas na prática as associações religiosas mantiveram restrições à entrada de pessoas com ‘defeito de qualidade’”.
As Ordens Terceiras eram confrarias, associações de cristãos católicos, que tanto cuidavam da parte religiosa – organizando festas dos dias santos, procissões, ereção de igrejas... – com prestava assistência aos membros – pagando enterro e missa, auxiliando com alimento os que ficavam pobres... 

Mas o costume da escravidão havia se entranhado até mesmo nessas irmandades. Assim, havia aquelas de pretos, de crioulos, de pardos e de brancos. “As arquiconfrarias das Mercês afirmaram em seus estatutos que aceitavam todas as pessoas que quisessem entrar por devoção, fossem forros (libertos) ou cativos (escravos). Porém, essa propalada abertura nem sempre condizia com a realidade. Por exemplo, não há qualquer registro de inscrição de irmão ‘preto’ durante toda segunda metade do século XVIII. Os confrades do Cordão (franciscanos) não incluíram em seus estatutos cláusulas excludentes. Não determinava que seus sócios fossem de pardo para cima. Porém os libertos recebiam o cordão (uma corda com três que devia ser amarrada a cintura como fazia São Francisco de Assis) e imediatamente podiam usá-lo publicamente. Os irmãos cativos não, pela seguinte razão: ‘pode acontecer que o irmão escravo proceda mal para com seu Senhor que o mande castigar publicamente e isto traria injuria à Confraria”.

Nossa cultura – lembranças, histórias e vivências – está tão cheia de maus tratos aos irmãos pretos que vai ser preciso muitas “cotas” para resgatar tudo.