Ontem, pedalava e conversava com o amigo Luciano Moura, aficionado
pela cultura medieval e mais precisamente por tudo que houve antes do Modernismo.
Falávamos dos dinamarqueses, os vikings
e sua invasão da Grã-Bretanha. Então, ele disse inspiradamente: A Igreja
Católica foi um grande freio para impedir que os homens voltassem aos seus mais
baixos instintos. E, agora cedo, li sobre isto no livro A Serra e o Santuário,
de J C V Tambasco.
Esta obra fala de Caeté, cidade alguns quilômetros depois de
Belo Horizonte. Um pouco afastado do centro da cidade tem um monte onde o povo
sobe para rezar numa pequena igreja que foi antes uma capela. Lá do alto o
visual das terras de Minas é muito bonito. E já estou me aprontando para viajar
de ônibus até lá perto, tirar minha bike do bagageiro e pedalar por aquele
lugares afastados da correria da vida mundana.
Aí é que uma coisa se liga a outra. A capela foi erigida pelo
português Antônio da Silva Bracarena. Ele veio para o Brasil e para Minas Gerais já
no final da mineração do ouro e trabalhou na região de Ouro Preto. Era um mestre
construtor de grandes obras: igrejas, prédios públicos e casas de gente rica.
Ganhou um bom dinheiro, levava uma vida folgada. “Vida folgada” é uma expressão
que engloba uma existência voltada para a satisfação pessoal e sem se preocupar
muito em controlar hábitos e comportamento. Mas Bracarena deixou de ver graça
nisso. Foi se tornando mais religioso e resolveu que precisava levar a sério o
que Jesus mandou: Orai e vigiai. Decidiu se tornar um anacoreta.
- Dá pra explicar o que significa isso, Zé? Não estou nada afim de procurar no Google.
É um ermitão, um homem que se afasta da vida mundana e que
fiscaliza com determinação todos os desejos de seu corpo. Ele imita o princípio
da vida de Cristo que foi para o deserto e ficou lá 40 dias jejuando, orando e
vigiando. Preparando-se como um guerreiro para enfrentar o Mal. O lema dum
monástico foi expresso por Santo Antão que viveu no fim do terceiro século da Era
Cristã: “Aquele que se permite tudo, chegará muito depressa a cometer tudo o
que não é permitido”.
Bracarense usou o dinheiro que tinha para fazer a capela no
alto do morro e estando na cidade o jovem Antônio Francisco Lisbôa – que anos
depois, doente, passou a ser chamado de Aleijadinho – esculpindo as imagens da
igreja matriz da cidade, encomendou-lhe a imagem de Nossa Senhora da Piedade.
Um viajante europeu, Jean de Montlaur, visitando a pequena igreja no início do
século XX, descreveu assim a imagem: “A virgem pálida segura entre seus braços
o corpo divino do Seu filho coberto de chagas, pleno de realismo. Não é a Ele
que ela olha, mas àqueles que os vêm visitar. Seus olhos falam de uma tristeza
infinita”. E o frei Luís de Ravena, escrevendo a seus superiores, em 1861,
disse: “Coisa mais notável! Aqueles que não vêm ao santuário por espírito de
religião, senão por passeio, no silêncio desta solidão, longe do tumulto do
século e sobretudo por estar diante desta imagem perfeitíssima, experimenta uma
comoção insólita e pensa logo numa mudança de vida”.
Por isso, vou com minha bike subir a serra da Piedade.








