quarta-feira, 8 de abril de 2015

Vai ser preciso muitas “cotas” para resgatar tudo.

“Pureza de sangue”, já ouviu falar disso?
Quando da descoberta do Brasil havia em Portugal forte descriminação as pessoas que descendiam de árabes, de judeus ou de africanos. Este preconceito veio para a América. Quem não fosse um europeu puro, fosse descendente dos três grupos já mencionados e também de índios, não podia exercer um cargo público, nem participar da alta sociedade. Diz o trabalho do Dr. em História, Daniel Precioso, Pardos e Crioulos em Ordens Terceiras (p. 120): “A nota distintiva de “liberto” foi abolida no reino português pelo Alvará de 16 de janeiro de 1773, mas na prática as associações religiosas mantiveram restrições à entrada de pessoas com ‘defeito de qualidade’”.
As Ordens Terceiras eram confrarias, associações de cristãos católicos, que tanto cuidavam da parte religiosa – organizando festas dos dias santos, procissões, ereção de igrejas... – com prestava assistência aos membros – pagando enterro e missa, auxiliando com alimento os que ficavam pobres... 

Mas o costume da escravidão havia se entranhado até mesmo nessas irmandades. Assim, havia aquelas de pretos, de crioulos, de pardos e de brancos. “As arquiconfrarias das Mercês afirmaram em seus estatutos que aceitavam todas as pessoas que quisessem entrar por devoção, fossem forros (libertos) ou cativos (escravos). Porém, essa propalada abertura nem sempre condizia com a realidade. Por exemplo, não há qualquer registro de inscrição de irmão ‘preto’ durante toda segunda metade do século XVIII. Os confrades do Cordão (franciscanos) não incluíram em seus estatutos cláusulas excludentes. Não determinava que seus sócios fossem de pardo para cima. Porém os libertos recebiam o cordão (uma corda com três que devia ser amarrada a cintura como fazia São Francisco de Assis) e imediatamente podiam usá-lo publicamente. Os irmãos cativos não, pela seguinte razão: ‘pode acontecer que o irmão escravo proceda mal para com seu Senhor que o mande castigar publicamente e isto traria injuria à Confraria”.

Nossa cultura – lembranças, histórias e vivências – está tão cheia de maus tratos aos irmãos pretos que vai ser preciso muitas “cotas” para resgatar tudo.     

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