“Pureza de sangue”, já ouviu falar disso?
Quando da descoberta do Brasil havia em Portugal forte
descriminação as pessoas que descendiam de árabes, de judeus ou de africanos.
Este preconceito veio para a América. Quem não fosse um europeu puro, fosse
descendente dos três grupos já mencionados e também de índios, não podia exercer
um cargo público, nem participar da alta sociedade. Diz o trabalho do Dr. em História,
Daniel Precioso, Pardos e Crioulos em Ordens Terceiras (p. 120): “A
nota distintiva de “liberto” foi abolida no reino português pelo Alvará de 16
de janeiro de 1773, mas na prática as associações religiosas mantiveram
restrições à entrada de pessoas com ‘defeito de qualidade’”.
As Ordens Terceiras eram confrarias, associações de cristãos
católicos, que tanto cuidavam da parte religiosa – organizando festas dos
dias santos, procissões, ereção de igrejas... – com prestava assistência
aos membros – pagando enterro e missa, auxiliando com alimento os que ficavam
pobres...
Mas o costume da escravidão havia se entranhado até mesmo nessas
irmandades. Assim, havia aquelas de pretos, de crioulos, de pardos e de brancos. “As
arquiconfrarias das Mercês afirmaram em seus estatutos que aceitavam todas as
pessoas que quisessem entrar por devoção, fossem forros (libertos) ou cativos
(escravos). Porém, essa propalada abertura nem sempre condizia com a realidade.
Por exemplo, não há qualquer registro de inscrição de irmão ‘preto’ durante
toda segunda metade do século XVIII. Os confrades do Cordão (franciscanos) não incluíram
em seus estatutos cláusulas excludentes. Não determinava que seus sócios fossem
de pardo para cima. Porém os libertos recebiam o cordão (uma corda com três que
devia ser amarrada a cintura como fazia São Francisco de Assis) e imediatamente
podiam usá-lo publicamente. Os irmãos cativos não, pela seguinte razão: ‘pode
acontecer que o irmão escravo proceda mal para com seu Senhor que o mande castigar
publicamente e isto traria injuria à Confraria”.
Nossa cultura – lembranças, histórias e vivências – está tão
cheia de maus tratos aos irmãos pretos que vai ser preciso muitas “cotas” para
resgatar tudo.

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