terça-feira, 29 de julho de 2014

O suplício que foi por mim e por você.

               Quando nasci, andava-se de bonde e o trem ainda era Maria Fumaça. Durante minha vida, inventaram a TV, aviões supersônicos, computadores e todo o conhecimento contido na Internet. Então, não é difícil acreditar que pelo fim da vida de meus netos o homem estará viajando no Tempo. Este é o mote dos livros Operação Cavalo de Troia. Nele um cientista volta até os dez últimos dias de Jesus na Terra. Apoiado por mais de cem pergaminhos e códices que falam daquele ano, 30 e.C, J.J.Benitz faz o personagem assistir a flagelação do Cristo. A descrição é terrível:
              “Dos legionários tinham-se separado dois, especialmente robustos. Ambos tinham nas mãos grandes látegos curtos, formados por cabos de couro e metal, com três correias de quarenta centímetros cada, armadas nas extremidades por pares de astrágalos, um, e bolinhas de chumbo, o outro. A um sinal do oficial comandante, dois soldados puseram o Mestre diante de um marco de quarenta centímetros de altura, tiraram o manto púrpura que Herodes Antipas Lhe prendera ao pescoço e, com violência, O despojaram da túnica. Com uma completa e absoluta docilidade, Jesus tudo consentia sem reagir. O Seu corpo começara a suar. Com um puxão, o legionário obrigou-O a inclinar-Se para o marco de pedra, prendendo a corda na argola metálica que coroava a pequena coluna. A grande altura do Galileu e o reduzido tamanho do marco obrigaram-no a ficar numa posição muito forçada. O cabelo caíra para a cara, escondendo as feições completamente. De repente, um dos carrascos avançou e agarrando a tanga de Jesus arrancou-a com um puxão brusco, deixando-o inteiramente nu. Num silêncio de expectativa, o legionário mais alto, postado à direita do Mestre, levantou o seu flagrum de triplo rabo, atirando uma terrível chicotada às costas de Jesus, ao mesmo tempo que cantava o número do golpe.
                - Unus!
                A chicotada foi tão brutal que os joelhos do Rabi vergaram, mas com um movimento reflexo o Galileu voltou a pôr-se de pé, ao mesmo tempo que o segundo verdugo vibrava novo golpe com o seu flagrum bífido. 
                 - Duo!
                - Três!
                - Quattour...
O entrechocar dos ossinhos e das bolas de metal eram o único som perceptível durante os primeiros minutos. Jesus, inteiramente curvado, ainda não deixara escapar um só gemido. Os astrágalos e as peças de chumbo caíam-lhe nas costas, arrancando de cada vez pedaços de pele. Logo à primeira chicotada vários fios de sangue tinham começado a correr pelo corpo pingando no pavimento. Pouco a pouco, a cada silvo do flagrum, os astrágalos e as bolas penetravam na pele, rasgando os tecidos musculares e arrancando vasos e nervos.
                - Triginta!
                O Rabi caiu, ficando de joelhos e com os dedos fortemente agarrados ao aro de metal da coluna. As costas, ombros e zonas lombares estavam encharcados de sangue, com uma infinidade de hematomas azulados.
                - Quadraginta!
                O corpo do Nazareno não reagiu. O centurião levantou a sua vara de vide, interrompendo a flagelação. Um dos suados verdugos aproximou-se do Mestre, puxando-Lhe os cabelos e verificou que desfalecera. Um dos legionários encheu um balde com a água da fonte, despejando-o na nuca do Nazareno. Ao contato com o líquido a cabeça de Jesus moveu-se ligeiramente, enquanto parte do sangue escorria para o chão, arrastado pela água. Um dos verdugos agarrou-o pelas axilas, puxando-o para cima enquanto o outro, sem contemplação alguma, Lhe puxava o cabelo e O obrigava a erguer o rosto.
                Um soldado com uma caçarola, esvaziou-a na boca do Galileu. Ela continha água com sal. O exército romano conhecia muito bem os graves problemas que podiam vir de um castigo como aquele. O centurião levantou o seu bastão e os legionários voltaram a empunhar os flagrum, prosseguindo o castigo.
                - Unus!
                O novo golpe e os que se seguiram foram dirigidos especialmente às coxas, pernas, nádegas, ventre e parte dos braços e peito.
                - Decem!
                Num esforço titânico para suportar a dor, Jesus de Nazaré agarrara-se à argola da coluna, levantando o rosto até onde lhe era possível. Dos músculos do pescoço, tensos como a corda de um arco, descia um suor frio que escorria sem parar e que esbatia o vermelho-vivo do sangue.
                - Duo-de-viginti!
                O verdugo atirou o látego ao peito do Mestre. Um dos pares de ossinhos deve ter ferido o mamilo esquerdo de Jesus, e a fortíssima dor provocou um movimento reflexo. O Gigante levantou-se com todas as Suas forças, lançando um gemido lancinante. Era o primeiro lamento do Rabi. Os verdugos, sabiam muito bem as zonas em que podiam bater e aquelas em que não. Nenhuma das costelas ficou fraturada. A precisão das chicotadas, em contrapartida, foram abrindo os flancos de Jesus até deixar a descoberto as faixas fibrosas, as últimas proteções das costelas. Jesus teve de aguentar dores difíceis de imaginar.
                - Quadraginta!
                A chicotada, que na realidade, completava os oitenta açoites, caiu num homem praticamente destruído. O Mestre, com o corpo deformado pelos hematomas e banhado em sangue, há algum tempo mal se mexia. Os Seus lamentos imperceptíveis já não se ouviam e só ecoava no pátio o estalido dos látegos ao cravarem-se na carne e a respiração cada vez mais ofegante dos verdugos, visivelmente esgotados. O Nazareno se enrolara num novelo, com a cabeça e parte do tórax apoiados nos braços, em posição fetal. As últimas chicotadas, cada vez mais lentas e espaçadas, dilaceraram-lhe as nádegas, ventre e zonas laterais das pernas, ferindo, até, as plantas dos pés.
               A bexiga urinária de tal modo devia estar cheia que, involuntariamente, os esfíncteres dos ureteres se abriram, dando origem a uma micção. Felizmente, a urina - ainda que extremamente amarela - não trazia sangue. Mas a descarga involuntária da urina serviu apenas para provocar o riso dos romanos e um ataque muito mais violento de ira em um dos verdugos que considerou aquilo como um insulto pessoal. Levantando o látego, apontou-o com raiva para os testículos do Mestre. Uma das pontas do flagrum tocou na pele do escroto e as outras duas caíram na bolsa testicular. Reagindo ao golpe dilacerante, Jesus encolheu-se, ao mesmo tempo em que a pulsação se acelerava e um gemido angustiante ecoava. Imediatamente o pulso baixou para noventa e o Mestre, empalidecendo, desmaiou”.

                Esse suplício foi por mim e por você. Merecemos?

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