quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O mais valioso de todos os presentes

No tempo de São João Damasceno os muçulmanos dominavam o Oriente Próximo. Sua família era árabe, mas todos convertidos ao cristianismo. Nasceu no ano 675, em Damasco. 

Aos trinta anos abandonou as comodidades da casa paterna e ingressou num mosteiro no deserto da Judeia, próximo de Jerusalém. Ordenado presbítero foi designado como pregador nas igrejas da Cidade Santa, principalmente na do Santo Sepulcro. Suas homilias eram cheias de sabedoria revelando aos cristãos atentos pormenores bíblicos que lhes enchia o coração de alegria. Estou lendo no livro, No Coração da Igreja, do professor Felipe Aquino, alguns de seus sermões. Naquela época os cristãos já veneravam intensamente a virgem mãe de Jesus. Ele leu um texto do profeta Isaías, que muito falou da vinda do Messias. As palavras parecem falar do povo de Israel, mas Damasceno mostrou que a profecia tinha dois comprimentos, o outro era revelando como seria o nascimento da virgem Maria (Isa.54:1):
“Jerusalém, você nunca teve filhos,
nunca sentiu dores de parto,
mas agora cante e grite de alegria,
pois o Senhor diz:
‘A mulher abandonada terá mais filhos
do que a que mora com o marido’.
Aumente a sua barraca,
torne ainda maior o lugar onde você mora
e não faça economia nisso.
Encompride as cordas da barraca e pregue bem as estacas.
Pois você vai estender as suas fronteiras para todos os lados;
o seu povo será novamente dono
das regiões que os seus inimigos conquistaram,
e cidades desertas ficarão cheias de gente”.
O presbítero leu aí o seguinte: “Que feliz casal são vocês, Joaquim e Ana que passou quase toda vida sem ter filhos. A vós toda criação se sente devedora. Pois foi por vosso intermédio que uma criatura pode oferecer ao Criador o mais valioso de todos os presentes, isto é, uma jovem pura, a única pessoa digna do Senhor Deus gerar nela seu Filho

Felizes sois, Ana e Joaquim, por terdes estabelecido um modo de viver agradável a Deus. Na vossa casta e santa convivência educaste a pérola da virgindade. Aquela que, de maneira única, conservaria sempre a virgindade tanto em seu corpo como em  seu coração. Por teres levado uma vida piedosa gerastes uma filha que é superior aos anjos e agora é rainha das cortes angélicas”.

Feliz 2015 com muita fé e saúde.   

sábado, 27 de dezembro de 2014

Vamos ver se você é bom de sabedoria.

Qual a diferença entre saber-como e saber-que? Michael Polanyi, cientista inglês (1891-1976), para explicar essa diferença usou a imagem de andar de bicicleta. 

Ah, agora chamei atenção dos amigos ciclistas que leem pouco. Saber-como é o conhecimento teórico. Então, com algumas fórmulas de Física incompreensíveis para mim se compreende como é que um cara fica sobre duas rodas e não cai nem para um lado nem para o outro – há os que caem para frente numa capotagem digna de uma boa rizada. Já o saber-que é o entendimento que se tem andando na bike. É a percepção da inclinação que se precisa dar para entrar naquela curva na velocidade em que estamos sem sair pelo mato a fora.
https://www.youtube.com/watch?v=6mJUrhAy8lE 
Descobri isto tudo procurando saber o que é epistemologia, palavrão que li logo no princípio do livro A Revelação Cristã do Logos. Essa difícil palavra nomeia a filosofia que procura compreender, entender e perceber antes de saber. É mais emoção e sentimento enquanto a sabedoria comum é mais racional. Como diz o rei Pelé: entendeu? 

domingo, 21 de dezembro de 2014

Como dizem os jovens: tudo junto e misturado.

Quando se está lendo dois livros, fatalmente eles se entrelaçam. Certos trechos tratam do mesmo assunto. Desta vez o objeto da atenção foi Deus.
Em O Senhor Smith, o personagem diz p.256: “Se eu aceitasse Deus como um pai benevolente, às vezes colérico, distribuindo favores e castigos, talvez tivesse simplificado minha vida. Devo dizer que acredito em Deus como uma força que arrancou do caos um universo. Se ele é uma poderosa coleção de leis e impessoal, ou se é Jeová, zeloso e protetor, vingativo e terrível, não sei dizer”. Com certeza tem aí a maneira de pensar do autor, o norte-americano Louis Bromfield (1896-1956).

Em No Coração da Igreja, no capítulo que fala dos sermões de São Bernardo, francês e franciscano (1090-1153), 

diz que ele ensinou p.218: “’O Verbo era Deus’, mas os homens não sabiam como Ele é e como pensa. Então, fabricavam ídolos conforme seus próprios corações. Pois Ele era incompreensível e inteiramente impensável. Por isso, Deus desceu a Terra, porque queria ser compreendido e ter seu pensamento exposto a nós. Mas de que modo fez isso?, perguntas. Ele se fez conhecido deitado no presépio, no colo da Virgem, pregando incansavelmente aos homens, reclinado em oração, pendente na cruz e pálido na morte, mas também mostrando aos apóstolos as marcas dos cravos e subindo ao céu”.

O que fazer? Como um leitor que lê num livro uma coisa e em outro algo diferente, deve pensar? Como dizem os jovens de hoje: tudo junto e misturado.  

Paz, isto jamais acontecerá!

“Há uma impressão chocante, de algo que acabou não sendo executado, na morte de um jovem” – p.227 do livro Sr. Smith.
O personagem está numa ilha do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial, e diz isso olhando um jovem japonês morto. Um soldado, vendo a mesma cena, não se aguenta e diz:
“Somos é uns estúpidos muito desengraçados! Precisava aparecer alguém que dissesse, com autoridade: Parem com isso! Pelo seu próprio bem e pelo desgraçado bem do resto do mundo, pare com isso!”
Foi o que senti, uma noite, ao sair de uma reunião no Voldac e ver um rapaz morto na calçada. Ali era outra guerra, a guerra das drogas. Meu sentimento foi o mesmo do soldado: Isso precisa parar! Quem pode dizer a cada jovem do mundo?: resolva seus problemas por outro meio que não seja as drogas!
O oficial volta a falar: “Que aconteceria se todos os jovens do globo se levantassem e dissessem: Já estamos fartos de morrermos cedo. Não acompanharemos mais essa desgraçada tolice. Queremos viver em paz, estudando, trabalhando, criando outros jovens e construindo”.


Depois da 2ª Grande Guerra, uma geração de jovens decidiu protestar contra outras guerras. Foram os hippies e os pacifistas. Mas foi ali também que eles iniciaram a grande guerra suja dos tóxicos. Detesto pensar assim, mas às vezes parece que a conclusão do capitão é a mais plausível: Viver em Paz, isto jamais acontecerá!     

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Andar de bicicleta lá é um perigo.

 “Na véspera já havia tirado a bicicleta do depósito. Havia dois meses que não andava nela. Teve de encher os pneus, engraxar a corrente e limpar a poeira. Ao montar nela e percorrer as ruas nas primeiras horas daquela manhã tão clara, Assaf estava feliz, assobiando e cantando, soltando a voz. Dinka trotava ao seu lado, corria na frente e voltava, lançando a Assaf olhares cheios de perguntas. Ela se afastava, chegava a desaparecer por um momento atrás de um carro estacionado, mas voltava logo. Ele deixou que ela o conduzisse”.

Esta narração está na p. 118 do livro Alguém para Correr Comigo, de David Grossman. Fala de um rapaz israelense andando em sua bicicleta com sua cadela ao lado andando por ruas de Jerusalém.
“Pedalava e assobiava, vendo como estava treinada a correr ao lado da bicicleta. Seguia-a pelas ruas preguiçosas, ainda despertando, entre caixas de leite e jornais dobrados sobre o passeio esperando o jornaleiro, e entre os jatos de água dos comerciantes lavando a calçada na frente das lojas. Aos poucos ela o foi conduzindo rumo à saída de Jerusalém. Corria ao seu lado, num leve galope, com visível prazer, saltando das patas traseiras para as dianteiras, lembrando um cavalinho de carrossel num parque de diversões; mas, mudou subitamente de direção”.
Neste ponto da história ele faz a descrição de como funciona o olfato do cão.
“Assaf percebeu como a coisa acontecia: seu nariz captava uma partícula de informação entre os milhares de cheiros e lembranças que preenchiam o espaço. Aparentemente, um deles transmitia algo com mais intensidade que os outros. Ela parava, voltava ao local onde sentira o cheiro, ficava parada farejando, interpretava o sentido e então, com toda a força, se lançava no novo caminho. Era um lugar ermo, sem casas e Dinka estava um pouco menos segura de si. Corria para frente e voltava, percorrendo grandes círculos a esmo, com hesitação. Às vezes parava e farejava ansiosamente nas quatro direções, sem conseguir tomar uma decisão. Em certo ponto a trilha estava bloqueada por um monte de pedras. Assaf escondeu a bicicleta atrás de um arbusto, subiu nas pedras e atravessou um pequeno descampado onde o mato estava alto e Dinka era apenas um risco móvel dividindo o mato em dois. Então, o descampado chegou ao fim, e Assaf se viu diante de um aglomerado de casas. Ruínas”.

Quando se pega uma trilha nova, em que nunca passamos, temos essas surpresas, mas como o jovem ciclista está nos arredores de Jerusalém ruínas tanto podem ser muito antigas, até dos tempos bíblicos, ou recentes.
“Caminhou pela aldeia fantasma na ponta dos pés, numa leve demonstração de respeito. Aqui já viveram pessoas, palestinos, pensou. Aqui, nesta mesma trilha, andavam e falavam, e seus filhos brincavam e corriam, e não imaginavam que algum dia teriam de sair daqui. Assaf sempre tivera o cuidado de não se aprofundar muito no assunto, talvez porque toda vez que abordava temas políticos começava a ouvir dentro de sua cabeça as intermináveis discussões entre judeus liberais e tradicionais. Os primeiros argumentam entre os dentes que toda aldeia abandonada como essa era uma ferida aberta no coração da sociedade israelense. ‘Tomamos as casas e terras dos palestinos’, e os outros replicavam que ‘se tivesse sido o contrário, a casa dele é que estaria assim, o que preferia?’”

É por isto que aquela terra está sempre em guerra e andar de bicicleta lá é um perigo.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Você é gente ou é um rato?

Concordo com tudo isso escrito no livro Sr. Smith – uma maneira de dizer que é uma pessoa comum, um Silva qualquer – p. 50: “O que me parece terrível é haver em nosso mundo moderno tão pequeno espaço para pensar. Uma das razões disto é que os desprovidos de mente se multiplicam mais depressa que os que param pra refletir. Quem não pensa, não se dá a consideração sobre sua própria pessoa, nem sobre seu ambiente mutante, sua fé ou o universo. Ficam ouvindo o rádio [olha que no tempo que esse livro foi escrito o rádio era uma peça grande na sala onde a família se reunia para ouvir, ao anoitecer; imagine o autor vivendo hoje e vendo todo mundo com fone de ouvidos escutando música?!], apenas um ruído para encher o vazio da mente”.
Pensar, pegar um objeto – pode ser um problema da firma ou da família, uma lei que o governo tenta passar no Congresso, um dogma religioso, um fato histórico, etc – e examiná-lo detidamente com os olhos da mente, é atividade mais importante do ser inteligente. O livro repreende: “Somos escravos do rádio, dos automóveis e dos telefones. Largamos tudo para atender um chamado, como se fôssemos ser punidos com tortura se o deixarmos tocar até cansar”.

Tem aquela antiga pergunta: Somos gente ou rato?
Esta pintura do amigo Ney Tecídio é um exemplo de quem pensa e cria.