“Na véspera já havia
tirado a bicicleta do depósito. Havia dois meses que não andava nela. Teve
de encher os pneus, engraxar a corrente e limpar a poeira. Ao montar nela e
percorrer as ruas nas primeiras horas daquela manhã tão clara, Assaf estava
feliz, assobiando e cantando, soltando a voz. Dinka trotava ao seu lado, corria
na frente e voltava, lançando a Assaf olhares cheios de perguntas. Ela se
afastava, chegava a desaparecer por um momento atrás de um carro estacionado,
mas voltava logo. Ele deixou que ela o conduzisse”.
Esta narração está na p. 118 do livro Alguém para Correr
Comigo, de David Grossman. Fala de um rapaz israelense andando em sua bicicleta com
sua cadela ao lado andando por ruas de Jerusalém.
“Pedalava e assobiava, vendo como estava treinada a correr
ao lado da bicicleta. Seguia-a pelas ruas preguiçosas, ainda despertando, entre
caixas de leite e jornais dobrados sobre o passeio esperando o jornaleiro, e entre
os jatos de água dos comerciantes lavando a calçada na frente das lojas. Aos
poucos ela o foi conduzindo rumo à saída de Jerusalém. Corria ao seu lado, num
leve galope, com visível prazer, saltando das patas traseiras para as
dianteiras, lembrando um cavalinho de carrossel num parque de diversões; mas, mudou
subitamente de direção”.
Neste ponto da história ele faz a descrição de como funciona o olfato do cão.
“Assaf percebeu como a coisa acontecia: seu nariz captava
uma partícula de informação entre os milhares de cheiros e lembranças que
preenchiam o espaço. Aparentemente, um deles transmitia algo com mais
intensidade que os outros. Ela parava, voltava ao local onde sentira o cheiro,
ficava parada farejando, interpretava o sentido e então, com toda a força, se
lançava no novo caminho. Era um lugar ermo, sem casas e Dinka estava um pouco menos
segura de si. Corria para frente e voltava, percorrendo grandes círculos a
esmo, com hesitação. Às vezes parava e farejava ansiosamente nas quatro
direções, sem conseguir tomar uma decisão. Em certo ponto a trilha estava bloqueada
por um monte de pedras. Assaf escondeu a bicicleta atrás de um arbusto, subiu
nas pedras e atravessou um pequeno descampado onde o mato estava alto e Dinka
era apenas um risco móvel dividindo o mato em dois. Então, o descampado chegou
ao fim, e Assaf se viu diante de um aglomerado de casas. Ruínas”.
Quando se pega uma trilha nova, em que nunca passamos, temos
essas surpresas, mas como o jovem ciclista está nos arredores de Jerusalém ruínas tanto podem
ser muito antigas, até dos tempos bíblicos, ou recentes.
“Caminhou pela aldeia fantasma na ponta dos pés, numa leve
demonstração de respeito. Aqui já viveram pessoas, palestinos, pensou. Aqui, nesta mesma trilha,
andavam e falavam, e seus filhos brincavam e corriam, e não imaginavam que
algum dia teriam de sair daqui. Assaf sempre tivera o cuidado de não se
aprofundar muito no assunto, talvez porque toda vez que abordava temas
políticos começava a ouvir dentro de sua cabeça as intermináveis discussões entre
judeus liberais e tradicionais. Os primeiros argumentam entre os dentes que
toda aldeia abandonada como essa era uma ferida aberta no coração da sociedade
israelense. ‘Tomamos as casas e terras dos palestinos’, e os outros replicavam que
‘se tivesse sido o contrário, a casa dele é que estaria assim, o que preferia?’”
É por isto que aquela terra está sempre em guerra e andar de
bicicleta lá é um perigo.



Um comentário:
O texto diz: ‘Tomamos as casas e terras dos palestinos’, e os outros replicavam que ‘se tivesse sido o contrário, a casa dele é que estaria assim, o que preferia?’”
Sofismo primário. Não pode existir o contrário, pois não tinha israelense antes. Esse tipo de argumento é que mantem a guerra viva. Barack Obama diz que gostaria de ver as fronteiras de 1948 respeitadas. Vejo no mapa o quais as fronteiras de 48 e as atuais.
Postar um comentário