sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Andar de bicicleta lá é um perigo.

 “Na véspera já havia tirado a bicicleta do depósito. Havia dois meses que não andava nela. Teve de encher os pneus, engraxar a corrente e limpar a poeira. Ao montar nela e percorrer as ruas nas primeiras horas daquela manhã tão clara, Assaf estava feliz, assobiando e cantando, soltando a voz. Dinka trotava ao seu lado, corria na frente e voltava, lançando a Assaf olhares cheios de perguntas. Ela se afastava, chegava a desaparecer por um momento atrás de um carro estacionado, mas voltava logo. Ele deixou que ela o conduzisse”.

Esta narração está na p. 118 do livro Alguém para Correr Comigo, de David Grossman. Fala de um rapaz israelense andando em sua bicicleta com sua cadela ao lado andando por ruas de Jerusalém.
“Pedalava e assobiava, vendo como estava treinada a correr ao lado da bicicleta. Seguia-a pelas ruas preguiçosas, ainda despertando, entre caixas de leite e jornais dobrados sobre o passeio esperando o jornaleiro, e entre os jatos de água dos comerciantes lavando a calçada na frente das lojas. Aos poucos ela o foi conduzindo rumo à saída de Jerusalém. Corria ao seu lado, num leve galope, com visível prazer, saltando das patas traseiras para as dianteiras, lembrando um cavalinho de carrossel num parque de diversões; mas, mudou subitamente de direção”.
Neste ponto da história ele faz a descrição de como funciona o olfato do cão.
“Assaf percebeu como a coisa acontecia: seu nariz captava uma partícula de informação entre os milhares de cheiros e lembranças que preenchiam o espaço. Aparentemente, um deles transmitia algo com mais intensidade que os outros. Ela parava, voltava ao local onde sentira o cheiro, ficava parada farejando, interpretava o sentido e então, com toda a força, se lançava no novo caminho. Era um lugar ermo, sem casas e Dinka estava um pouco menos segura de si. Corria para frente e voltava, percorrendo grandes círculos a esmo, com hesitação. Às vezes parava e farejava ansiosamente nas quatro direções, sem conseguir tomar uma decisão. Em certo ponto a trilha estava bloqueada por um monte de pedras. Assaf escondeu a bicicleta atrás de um arbusto, subiu nas pedras e atravessou um pequeno descampado onde o mato estava alto e Dinka era apenas um risco móvel dividindo o mato em dois. Então, o descampado chegou ao fim, e Assaf se viu diante de um aglomerado de casas. Ruínas”.

Quando se pega uma trilha nova, em que nunca passamos, temos essas surpresas, mas como o jovem ciclista está nos arredores de Jerusalém ruínas tanto podem ser muito antigas, até dos tempos bíblicos, ou recentes.
“Caminhou pela aldeia fantasma na ponta dos pés, numa leve demonstração de respeito. Aqui já viveram pessoas, palestinos, pensou. Aqui, nesta mesma trilha, andavam e falavam, e seus filhos brincavam e corriam, e não imaginavam que algum dia teriam de sair daqui. Assaf sempre tivera o cuidado de não se aprofundar muito no assunto, talvez porque toda vez que abordava temas políticos começava a ouvir dentro de sua cabeça as intermináveis discussões entre judeus liberais e tradicionais. Os primeiros argumentam entre os dentes que toda aldeia abandonada como essa era uma ferida aberta no coração da sociedade israelense. ‘Tomamos as casas e terras dos palestinos’, e os outros replicavam que ‘se tivesse sido o contrário, a casa dele é que estaria assim, o que preferia?’”

É por isto que aquela terra está sempre em guerra e andar de bicicleta lá é um perigo.

Um comentário:

ANTONIO DIUK FONTENELE MOURAO disse...

O texto diz: ‘Tomamos as casas e terras dos palestinos’, e os outros replicavam que ‘se tivesse sido o contrário, a casa dele é que estaria assim, o que preferia?’”

Sofismo primário. Não pode existir o contrário, pois não tinha israelense antes. Esse tipo de argumento é que mantem a guerra viva. Barack Obama diz que gostaria de ver as fronteiras de 1948 respeitadas. Vejo no mapa o quais as fronteiras de 48 e as atuais.