segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

O Grito da Independência por quem estava lá.

Solenemente o amigo Ademar Valim me estendeu um envelope branco tamanho A4 e disse circunspecto: "O historiador Beckmann Pithany garimpando livros raros em cebos no Rio de Janeiro encontrou uma carta de Joaquim José de Souza Breves, o Rei do Café. Como sei de seu prazer em estudar a História tirei cópia e passo às suas mãos. Mande-me sua impressão".
Ontem mesmo, depois do belo e forte pedal, sentei lendo e saboreando as palavras: “Ele assistiu o Grito da Independência e dos presentes foi o último a falecer”, afirma Beckmann. Falava de Joaquim José, homem de nossa região e, há época, um dos homens mais ricos do Brasil: era dono de “inúmeras fazendas onde empregava mais de seis mil escravos, do porto e armazém-depósito em Mangaratiba [quando se desce àquele trecho do litoral sul-fluminense passamos por essas ruínas] 

e de muitos imóveis no Rio de Janeiro, sendo o mais precioso uma chácara em frente ao Jardim Botânico”.
Mas lendo as 11 páginas minha imaginação se deteve em Joaquim José com 18 anos. Agora é o historiador José Adal que conta. [Joaquim José aos 38 anos e já Comendador da Imperial Ordem da Rosa]

Uma carta havia preparado José de Souza Breves, seu pai, para recepcionar o príncipe regente D. Pedro de Alcânta que passaria pela pacata cidade de São João Marcos em caminho de São Paulo. A carta incluía também um convite para o jovem Joaquim José se incorporar a comitiva. ‘Seu’ José Breves reuniu a família e anunciou as novidades, incumbindo ‘dona’ Maria Pimenta de Almeida Breves, sua esposa, dos preparativos para receber as dezoito pessoas e de encomendar ao alfaiate um uniforme de gala para o rapaz.
D. Pedro saí do Rio de Janeiro – situação que havia sido planejada por seu ministro José Bonifácio de Andrade e Silva junto com a arquiduquesa e princesa Dona Leopoldina – onde ficavam todas as instituições portuguesas e centenas de luzitanos funcionários da Coroa de Portugal. Corria a notícia de que o reino europeu teria enviado uma carta exigindo a volta do príncipe Pedro de Alcântara à Portugal. Decidiu-se a viagem do jovem príncipe à São Paulo para que não estivesse no Rio quando a carta chegasse e os oficiais portugueses obrigassem o príncipe a embarcar de volta à Europa. A esposa e o ministro fizeram ver à Pedro que estava na hora de uma temerária tomada de decisão: ou voltava a ser o Brasil uma imensa colônia do pequeno Portugal, ou se separava dele e seguia seu destino de imensa nação. José Bonifácio era paulista e na cidade de Piratininga havia só um governo provinciano e uma tropa. De muito os paulistas eram maioria na colônia portuguesa.
Em 23 de agosto de 1822 a comitiva deixa a capital como se estivesse indo apenas numa visita pouco oficial do príncipe à cidades da província de São Paulo. Passam por Itaguaí e seguem beirando a encosta da serra do Mar. Em Mangaratiba sobem a serra. Consta que não iam à cavalo já que a subida íngreme em trilha dificultosa era mais apropriada para mulas. Do alto da serra do Piloto, apreciando a beleza do mar, os subalternos dão de beber aos animais numa fonte que ficou conhecida como Bebedouro do cavalo de D. Pedro. 

A viagem continuou no meio da densa mata Atlântica com inúmeros córregos cortando o caminho. Sobre um riacho mais forte os cavaleiros passaram sobre a ponte Bela.
[não é certo afirmar que as pessoas na foto fossem lusitanos da comitiva de D. Pedro]

A chegada à São João Marcos foi festiva com os sinos da igreja badalando alegremente. O povo do lugarejo cercou seu príncipe que era aclamado, tocado e olhado com devoção. 
[pessoas menos sérias afirmaram que na foto no portal da igreja de S. João Marcos aparecem D. Pedro e seu amigo Chalaça, mera especulação] 

Entraram na casa de José Breves que disse ao príncipe: Esteja em vossa casa, Alteza. Não eram meras palavras, pois onde o príncipe entrava o local ficava sendo conhecido para sempre como onde ele pisou. O jovem Joaquim José lhe foi apresentado e Pedro lhe disse: "Deste momento em diante vosmecê é meu guarda de honra e coloco minha vida sob vossa proteção". O rapaz não cabia em si de emoção.

Dia seguinte a comitiva deixou a cidade pelo caminho recoberto de pedras e sombreado pela mata milenar. Pernoitaram em Pouso Seco – é preciso descobrir onde ficaram -, passaram por Bananal, voltando a pernoitar em São José do Barreiro. Beckmann, conta: “Quando D. Pedro penetrou o território paulista, todas as cidades do chamado Vale do Paraíba, a partir de Bananal, o esperava com luzidas representações de cavaleiros da melhor nobreza do lugar, que o festejavam como ‘futuro Imperador do Brasil’ e o acompanhavam como grupos de guerra”. Era isto que José Bonifácio havia planejado secretamente enviando cartas a cada comarca paulista, que Pedro fosse ganhando confiança de que a tomada de posição não era uma usurpação, era vontade do povo. 
O rapaz de São João Marcos estava entre os que cercaram o príncipe na hora do grito. Do próprio punho, em 15 de maio de 1842, o Comendador Joaquim José assim descreveu a cena à D. Pedro II: "De repente sua Alteza gritou: 'Laços fora, soldados! Estão rompidas nossas relações com Portugal e nada temos a temer! Então, toda guarda de Honra foi tirando dos chapéus os laços azul e branco, símbolo da união entre Brasil e Portugal. Jogaram-nos ao chão, pisoteando sobre eles e gritando: Viva a Independência do Brasil! Todos os presentes, aproximando-se de sua Alteza, lhe cumprimentaram por seu gesto decisivo. Foi aí então, que ali no meio da estrada, desembainhando a espada, sendo seguido por todos os militares, e com os músculos rígidos, a espada levantada, bradou com todas as suas forças: Pelo meu sangue, pela minha honra, pelo meu Deus, eu proclamo agora Independência do Brasil!"
[não se deu bem assim, como Pedro Américo pintou numa tela de 7,60mx4,15m, em Florença, onde fez seus estudos entre 1886-1888, pagos por D. Pedro II]
  
A tudo isto o jovem Joaquim José assistiu, essa experiência se incorporou à sua vida... tudo porque não ficou em casa sentado, mas saiu pelas estradas com a comitiva.
Um bom 2016 para todos nós, saindo de casa e andando pelas trilhas deste mundo que Deus nos deu.              

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